Automatizar projeto e orçamento no SolidWorks não é pedir para uma IA "desenhar a peça". É montar uma linha de produção de informação: o pedido do cliente entra como texto, sai como modelo 3D, desenho, lista de materiais e orçamento — e o engenheiro assume o papel de quem valida, não de quem redigita.
O que realmente consome tempo na engenharia
Na maioria das indústrias que atendemos, o gargalo não é a criação técnica. É a repetição: reabrir um projeto parecido, trocar medidas, atualizar a lista de materiais, exportar desenho, transportar dados para a planilha de custo e refazer tudo quando o cliente muda uma dimensão.
Esse é o trabalho que a automação assume bem, porque ele é regido por regras — dimensões, materiais, normas, tabelas de preço — e não por julgamento.
A arquitetura em quatro camadas
1. Modelo paramétrico bem construído
Nada funciona sem essa base. O modelo precisa estar dirigido por parâmetros e relações consistentes: cotas nomeadas, tabela de configurações, features que aceitam variação sem quebrar a árvore. Um modelo cheio de cotas soltas não automatiza — ele falha na primeira variação.
2. Regras de engenharia escritas fora do CAD
Espessura mínima por pressão, material permitido por aplicação, faixa de diâmetros, folgas de solda, norma aplicável. Essas regras precisam viver em um lugar legível e auditável — planilha estruturada, banco de dados ou arquivo de configuração — para poderem ser revisadas pela engenharia sem depender de quem programou.
3. A camada de IA: interpretar o pedido
É aqui que a IA entra, e o papel dela é mais modesto e mais útil do que se costuma imaginar: ler o pedido como ele chega — e-mail solto, PDF do cliente, mensagem de WhatsApp, planilha mal preenchida — e transformar isso em parâmetros estruturados.
- Extrai quantidade, material, dimensões, norma e aplicação de um texto livre.
- Aponta o que está faltando ou ambíguo, em vez de inventar valor.
- Sugere a configuração mais próxima no catálogo já existente.
- Devolve tudo em um formato fixo, que a próxima camada consegue executar sem interpretação.
A IA não decide espessura de parede nem escolhe norma. Ela organiza a entrada — que é justamente onde a equipe perde horas de leitura e retrabalho.
4. A API do SolidWorks: executar
Com os parâmetros validados, um programa dirige o CAD pela API: aplica as cotas, gera a configuração, atualiza o desenho, exporta PDF e STEP e extrai a lista de materiais. O mesmo fluxo alimenta a planilha ou o ERP com quantidades e custos, produzindo o orçamento na sequência.
Um ponto prático que trava muitos projetos antes de começar: a API só está disponível em licença regular do SolidWorks. Instalação irregular, além do risco jurídico, não sustenta automação.
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Falar no WhatsAppOnde o engenheiro permanece — e por quê
O fluxo termina em uma tela de validação, nunca em envio automático ao cliente. O engenheiro confere parâmetros críticos, aprova ou corrige, e a aprovação fica registrada com data e responsável. Isso não é excesso de cautela: responsabilidade técnica não se delega a software.
A automação não decide o projeto. Ela elimina a digitação, o transporte de dados e o retrabalho entre o pedido e a proposta.
Como implantar sem parar a operação
- Escolha uma família de produtos, a mais pedida e mais repetitiva — não a mais complexa.
- Padronize o modelo paramétrico dessa família e documente as regras que a engenharia já aplica de cabeça.
- Automatize primeiro a geração de modelo e lista de materiais; só depois ligue o orçamento.
- Rode em paralelo com o processo manual por algumas semanas e compare resultados peça por peça.
- Só então amplie para a segunda família, reaproveitando a mesma estrutura.
Esse recorte é o que separa um projeto que entra em produção de um piloto que morre na demonstração: começa pequeno, no que tem volume, e cresce sobre uma base já validada pela própria engenharia.
O que medir para saber se valeu
- Horas entre o pedido e a proposta enviada.
- Quantidade de revisões causadas por erro de digitação ou lista desatualizada.
- Percentual de pedidos que a equipe consegue orçar dentro do prazo prometido.
- Capacidade de atendimento: quantas propostas a mesma equipe entrega por mês.
Escrito por Paulo Mohr — economista, especialista em automação industrial e GEO. Mohr integra IA, CAD e sistemas de gestão em indústrias de Santa Catarina, ligando decisão de negócio à implementação técnica.
